A mensagem chega pelo WhatsApp e parece legítima. O nome e a fotografia do advogado estão corretos, e o número do processo corresponde a uma ação judicial verdadeira. Do outro lado, alguém informa que houve uma decisão favorável e que o valor será liberado após o pagamento de uma taxa.
Para o cliente, tudo indica que a conversa é com o profissional responsável pelo caso. O interlocutor, porém, pode ser um criminoso. Esse é o mecanismo central do golpe do falso advogado: explorar a credibilidade da relação profissional e combinar informações verdadeiras com uma solicitação fraudulenta.
O que é o golpe do falso advogado?
O golpe ocorre quando uma pessoa se apresenta como advogado, integrante de um escritório ou representante de uma instituição judicial para obter dinheiro ou informações sigilosas. A abordagem pode mencionar número do processo, nomes das partes, natureza da demanda, movimentações e dados do profissional verdadeiro.
O fraudador costuma anunciar a suposta liberação de indenização, alvará ou depósito judicial e, em seguida, pedir Pix, boleto, dados bancários, código de autenticação ou compartilhamento da tela. A existência de informações processuais reais não prova a identidade de quem envia a mensagem. Parte desses dados pode estar disponível em consultas públicas ou em documentos que circulam fora do escritório.
Por que o golpe se tornou uma preocupação nacional?
Em abril de 2026, o Conselho Federal da OAB informou que o ConfirmADV havia recebido 32.318 solicitações de verificação desde o lançamento. Foram 22.685 consultas confirmadas e 9.633 não confirmadas; este último grupo também inclui tentativas incompletas e dados incorretos, não apenas fraudes.
Em setembro, a OAB Paraná registrava 3.600 relatos em 2026. Em agosto, o Ministério da Justiça divulgou a Operação Juris Fictio, que cumpriu medidas contra uma organização suspeita de aplicar o golpe em pessoas idosas.
Os dados mostram uma fraude que exige cooperação entre advocacia, instituições financeiras, autoridades e plataformas de comunicação.
Como os criminosos conseguem convencer as vítimas?
1. Dados reais do processo
Detalhes corretos criam familiaridade e reduzem a desconfiança, embora não validem o contato.
2. Identidade profissional copiada
Nome, fotografia, logotipo, número da OAB e documentos falsificados imitam o escritório verdadeiro.
3. Urgência artificial
O prazo curto para liberar um valor tenta impedir que a vítima confirme a história por outro canal.
4. Pedido financeiro ou de acesso
Pix, boleto, dados bancários, código de autenticação e compartilhamento de tela transformam a abordagem em prejuízo.
Quais são os principais sinais de alerta?
- Número desconhecido: o contato é diferente dos canais informados no contrato ou no site oficial.
- Pagamento inesperado: aparece uma cobrança não combinada, sobretudo para uma chave Pix de terceiro.
- Liberação imediata: indenização, depósito ou alvará dependeria de transferência urgente.
- Pressão psicológica: o interlocutor desencoraja verificações ou insiste em sigilo e rapidez.
- Documentação suspeita: decisões, guias ou comprovantes não podem ser conferidos em fonte oficial.
- Acesso ao dispositivo: há pedido de senha, código, acesso remoto, videochamada inesperada ou compartilhamento de tela.
Um sinal isolado não prova a ocorrência de crime, mas justifica interromper o atendimento e fazer uma verificação independente. Despesas processuais e pagamentos por Pix podem ser legítimos; o problema é a cobrança sem confirmação de origem, finalidade e destinatário.
ConfirmADV: como verificar a identidade de um advogado?
O ConfirmADV, ferramenta do Conselho Federal da OAB integrada ao Cadastro Nacional dos Advogados, permite validar o registro profissional mediante confirmação eletrônica enviada ao e-mail cadastrado.
Como os escritórios podem proteger seus clientes?
- Defina canais oficiais: informe telefone, e-mail e responsáveis desde a contratação e explique como mudanças serão comunicadas.
- Crie regras para pagamentos: registre como honorários e despesas serão cobrados e peça confirmação independente para solicitações inesperadas.
- Oriente antes do golpe: inclua avisos preventivos no onboarding e reforce-os após decisões ou movimentações financeiras.
- Organize o histórico: centralize mensagens, documentos, cobranças e responsáveis em vez de depender de celulares e caixas de entrada isoladas.
- Controle acessos: use autenticação multifator, revise permissões e remova acessos de colaboradores desligados.
- Prepare a resposta: defina quem recebe o relato, preserva evidências, comunica clientes e avalia notificações.
- Revise o protocolo: atualize as orientações sempre que equipe, canais ou tecnologias mudarem.
Uma mensagem preventiva pode ser simples: “Nosso escritório não solicita pagamentos inesperados para liberar valores judiciais por números desconhecidos. Antes de transferir qualquer quantia, confirme a solicitação pelos canais oficiais informados no contrato.”
Esse cuidado também reduz perdas entre o primeiro contato e a contratação. Veja como organizar o atendimento jurídico do contato ao contrato.
O que fazer quando um cliente informa que caiu no golpe?
Interrompa o contato com o suspeito e confirme a situação com o advogado verdadeiro. Se houve transferência, a vítima deve comunicar imediatamente a fraude à instituição financeira pelos canais oficiais.
Para Pix, o Banco Central orienta acionar o Mecanismo Especial de Devolução (MED) pelo aplicativo da instituição. O pedido pode ser feito em até 80 dias, mas agir rapidamente aumenta a chance de localizar saldo. O MED não garante devolução: o resultado depende da análise do caso e da existência de recursos.
Também é importante registrar boletim de ocorrência e preservar mensagens, números, áudios, documentos e comprovantes. O escritório deve verificar se outros clientes receberam abordagens semelhantes e comunicar pessoas potencialmente expostas sem divulgar informações protegidas por sigilo.
O escritório pode ser responsabilizado pelo golpe?
O uso indevido da identidade profissional não gera automaticamente responsabilidade civil do advogado ou do escritório. A análise depende das circunstâncias, da conduta dos envolvidos, de eventual falha de segurança e dos requisitos jurídicos aplicáveis.
Também é preciso distinguir dados obtidos em consulta pública de um incidente decorrente de acesso não autorizado aos sistemas internos. Ter detalhes verdadeiros do processo não comprova, por si só, vazamento pelo advogado.
Se houver comprometimento confirmado de dados pessoais sob responsabilidade do escritório, a situação deve ser documentada e avaliada à luz da LGPD. A Resolução CD/ANPD nº 15/2024 disciplina a comunicação de incidentes que possam acarretar risco ou dano relevante. Casos concretos exigem análise jurídica e técnica própria.
Como a tecnologia de gestão jurídica auxilia na prevenção?
Nenhuma plataforma impede sozinha que criminosos copiem nomes ou obtenham dados fora do escritório. A tecnologia, porém, ajuda a organizar os controles internos que tornam a fraude mais fácil de identificar e responder.
Ao centralizar clientes, processos, documentos, conversas, tarefas e informações financeiras, a equipe consegue conferir o histórico de uma cobrança e identificar quem deveria conduzir o atendimento. O WhatsApp integrado ao software jurídico relaciona mensagens e responsáveis ao contexto do caso; o portal do cliente oferece um canal estruturado para processos, documentos e atualizações.
Esses recursos precisam funcionar com autenticação, conferência de pagamentos, treinamento e orientação. Ao avaliar uma plataforma, inclua controles e governança no checklist para escolher um software jurídico e confira os critérios de segurança em software jurídico na nuvem.
Proteger a confiança também faz parte da gestão jurídica
A relação entre advogado e cliente depende de confiança, confidencialidade e comunicação clara. A resposta ao golpe não é abandonar os canais digitais, mas usá-los com procedimentos mais consistentes.
Definir canais oficiais, estabelecer regras para pagamentos, orientar clientes, preservar registros e organizar o atendimento fortalece a relação profissional. Em uma advocacia digital, a qualidade da gestão também aparece na capacidade de proteger informações e responder com eficiência a situações de risco.
Organize o atendimento e fortaleça a confiança dos clientes
Centralize processos, documentos, WhatsApp, informações financeiras e histórico de relacionamento para tornar a comunicação do escritório mais clara e rastreável.
Conheça as funcionalidades do BigAdvPerguntas frequentes
Confirme o contato por telefone, e-mail ou outro canal oficial previamente conhecido. Fotografia, número da OAB e dados do processo não bastam. O ConfirmADV pode auxiliar na validação do registro profissional.
Sim. O Pix pode ser usado em pagamentos legítimos, mas a origem, a finalidade e o destinatário da cobrança precisam ser confirmados. Solicitações inesperadas por números desconhecidos exigem verificação independente.
Parte das informações pode estar em consultas públicas ou documentos que circulam fora do escritório. Em outros casos, pode haver obtenção indevida. A simples posse dos dados não revela sua origem.
Comunique o banco imediatamente, conteste a transação e, no Pix, solicite o MED. Registre boletim de ocorrência, preserve todas as evidências e avise o advogado verdadeiro.
Não. A ferramenta auxilia na verificação da identidade profissional, mas não comprova que um telefone pertence ao advogado. Confirme o número por um canal oficial conhecido.
Não. A fraude pode acontecer fora dos sistemas do escritório. A organização do histórico, dos documentos, das cobranças e dos responsáveis, porém, apoia procedimentos internos de verificação e resposta.
