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Inteligência artificial como prova: 6 pontos da decisão do STJ

Inteligência artificial • Processo penal • STJ

Inteligência artificial como prova: 6 pontos da decisão do STJ

A Quinta Turma afastou dos autos um relatório elaborado com apoio de IA generativa e reforçou a necessidade de metodologia verificável, adequação técnica e validação humana.

A inteligência artificial como prova passou a ocupar o centro de uma discussão relevante no processo penal. Em abril de 2026, a Quinta Turma do Superior Tribunal de Justiça afastou dos autos um relatório elaborado por investigador policial com apoio de ferramentas de IA generativa.

A decisão em foco

O julgamento ocorreu no HC 1.059.475/SP, relatado pelo ministro Reynaldo Soares da Fonseca. Por unanimidade, o colegiado entendeu que o documento não apresentava confiabilidade epistêmica mínima para sustentar uma acusação criminal.

A decisão não proíbe o uso de inteligência artificial no Direito. Ela estabelece um limite: resultados automatizados precisam de metodologia verificável, adequação técnica e validação humana.

1. Inteligência artificial como prova: o que aconteceu no caso?

O processo teve origem em uma acusação de injúria racial após uma partida de futebol em Mirassol, no estado de São Paulo. O episódio foi registrado em vídeo e o material audiovisual foi submetido à perícia oficial.

O Instituto de Criminalística realizou uma análise de fonética e acústica. O laudo não identificou no áudio elementos compatíveis com a expressão indicada pela acusação.

Depois desse resultado, investigadores utilizaram as ferramentas Gemini e Perplexity para uma nova análise. O relatório produzido com IA chegou a uma conclusão diferente da perícia oficial e foi utilizado como um dos fundamentos da denúncia.

Esse contraste levou o STJ a examinar se a inteligência artificial como prova possuía aptidão técnica suficiente naquele caso específico.

inteligência artificial como prova no processo penal
A decisão analisou a confiabilidade de um relatório produzido com ferramentas de inteligência artificial generativa.

2. Por que o relatório produzido por IA foi rejeitado?

O STJ não considerou o relatório automaticamente ilícito. Também não reconheceu, naquele ponto, quebra da cadeia de custódia do vídeo.

O problema estava na confiabilidade do resultado. No processo penal, não basta que uma informação tenha sido obtida licitamente. Ela também precisa apresentar base racional e técnica capaz de justificar as conclusões produzidas.

A perícia oficial descreveu os critérios empregados na análise do áudio. Já o relatório de IA não demonstrou metodologia técnico-científica apta a afastar o laudo pericial.

Para a Quinta Turma, faltou transparência sobre o caminho percorrido pela ferramenta até a conclusão. Sem possibilidade de verificação e reprodução, a inteligência artificial como prova não poderia superar a perícia oficial.

Resultado do julgamento: o relatório foi excluído dos autos.

3. O risco das alucinações da inteligência artificial

A decisão também destacou o risco das chamadas alucinações da IA. Esse fenômeno ocorre quando o sistema apresenta informações incorretas, inexistentes ou fabricadas com linguagem aparentemente segura.

No ambiente jurídico, um texto convincente não é sinônimo de conteúdo verdadeiro. O mesmo cuidado vale para relatórios, resumos, pesquisas e análises automatizadas.

As ferramentas utilizadas no caso trabalham principalmente com processamento de linguagem. Não foi demonstrado que possuíam capacidade científica para substituir uma perícia fonética realizada sobre áudio.

Adequação técnica é indispensável

O uso de inteligência artificial como prova exige adequação entre a tecnologia escolhida e o objeto analisado.

4. O STJ proibiu a inteligência artificial como prova?

Não. A decisão analisou um relatório específico, produzido sem validação técnica adequada e sem demonstração de confiabilidade mínima.

O precedente não impede que sistemas de IA sejam empregados como ferramentas auxiliares. O que ele afasta é a aceitação automática de uma conclusão produzida por tecnologia generativa.

Para que a inteligência artificial como prova seja considerada, o material precisa permitir:

  • identificação da ferramenta utilizada;
  • explicação da metodologia;
  • verificação dos dados inseridos;
  • reprodução dos resultados;
  • adequação técnica à finalidade;
  • revisão por profissional qualificado;
  • contraditório e questionamento da conclusão.

Sem esses elementos, o formato de relatório não transforma uma resposta automatizada em prova confiável.

5. Quais são os impactos para a advocacia?

A decisão reforça que advogados, peritos, autoridades policiais, Ministério Público e magistrados devem avaliar a origem e o método de toda informação produzida por IA.

Antes de utilizar um conteúdo automatizado, é necessário perguntar:

Origem

Qual sistema produziu o resultado?

Adequação

A ferramenta é adequada para esse tipo de análise?

Dados

Quais dados foram fornecidos?

Revisão

Houve revisão humana?

Reprodução

A conclusão pode ser reproduzida?

Fontes

Existem fontes oficiais?

Contradição técnica

O resultado contradiz uma perícia técnica?

Esses cuidados são ainda mais importantes no processo penal. Uma conclusão incorreta pode afetar a liberdade, a reputação e outros direitos fundamentais.

A discussão sobre inteligência artificial como prova também demonstra que a transformação digital precisa caminhar junto com a responsabilidade profissional.

6. Como utilizar IA com mais segurança no escritório?

A inteligência artificial pode auxiliar pesquisas, resumos e organização de informações. No entanto, o conteúdo precisa passar por controles internos.

Verifique fatos e fontes

Confirme jurisprudências, números de processos, datas, artigos de lei e nomes em bases oficiais. Nunca utilize uma referência apenas porque foi apresentada com segurança pela ferramenta.

Preserve o sigilo profissional

Evite inserir dados pessoais, documentos sigilosos e informações estratégicas de clientes em plataformas sem garantia adequada de segurança e tratamento de dados.

Registre a origem do conteúdo

Mantenha histórico da ferramenta, da pesquisa realizada, dos documentos consultados e da revisão efetuada. Isso melhora a rastreabilidade.

Exija revisão humana

Nenhuma peça, parecer ou relatório relevante deve ser protocolado sem análise de profissional responsável. A IA pode apoiar a elaboração, mas não assume a responsabilidade jurídica.

Utilize tecnologia adequada

Uma ferramenta de texto não deve ser tratada como sistema pericial de áudio, vídeo ou imagem sem comprovação técnica.

inteligência artificial como prova com validação humana
Validação humana, metodologia verificável e responsabilidade profissional devem acompanhar o uso de IA na atividade jurídica.

Software jurídico e organização das informações

A decisão do STJ também evidencia a importância de manter documentos, versões e atividades devidamente registrados.

Um software jurídico pode centralizar processos, prazos, tarefas, documentos e históricos de atendimento. Essa organização não valida automaticamente o conteúdo produzido por IA, mas melhora o controle e a rastreabilidade do trabalho.

No BigAdv, a tecnologia apoia a rotina do escritório sem substituir a análise estratégica do advogado. O objetivo é reduzir falhas operacionais e permitir que a equipe dedique mais tempo à revisão, à fundamentação e ao atendimento dos clientes.

Para aprofundar o tema, veja também o artigo sobre
qual é a melhor inteligência artificial para advogados
e o conteúdo sobre
procuração digital e software jurídico.

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Conclusão

A decisão da Quinta Turma representa um alerta sobre os limites da inteligência artificial como prova no processo penal.

O STJ não declarou que toda utilização de IA é inválida. O tribunal afastou um relatório que não demonstrou metodologia verificável, confiabilidade mínima nem capacidade técnica para contrariar a perícia oficial.

A tecnologia pode ampliar a eficiência da advocacia, mas seus resultados precisam de conferência, fundamentação e responsabilidade humana.

No Direito, inovação é importante. Confiabilidade e segurança jurídica são indispensáveis.

Referências

STJ — Quinta Turma rejeita relatório produzido por IA como prova em ação penal


Acessar a notícia oficial do Superior Tribunal de Justiça

STJ — Informativo de Jurisprudência nº 884, HC 1.059.475/SP


Consultar o informativo oficial

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